Uma trajetória iniciada em 1872, profundamente ligada à formação e ao desenvolvimento de Ribeirão Preto, marcada por ideais de fraternidade, progresso e compromisso com a sociedade.
De acordo com variados autores e documentos históricos (arquivados no Arquivo Público do Estado de São Paulo e na Biblioteca Nacional), precisamente em 02 de novembro de 1845, na Fazenda das Palmeiras, foi fincada uma cruz de madeira para demarcar um patrimônio para a futura Capela de São Sebastião.
A esta doação inicial, anexaram-se outras para ampliar o patrimônio da capela, feitas por José Alves da Silva (quatro alqueires), Miguel Bezerra dos Reis (dois alqueires), Antônio Bezerra Cavalcanti (doze alqueires), Alexandre Antunes Maciel (dois alqueires), Mateus José dos Reis (dois alqueires), Luís Gonçalves Barbosa (um alqueire) e Mariano Pedroso de Almeida, entre outros. A Fazenda Palmeiras viria a se tornar o município de Ribeirão Preto. Outras fazendas também foram incorporadas: Barra do Retiro, Ribeirão Preto ou Pontinha, Retiro, Serrinha, Serra Azul, Tamanduá, Capoeirinha, Braço Direito do Ribeirão Preto e Sertãozinho.
Conforme registro no Almanak Político e Literário de São Paulo, em 19 de junho de 1856 foi fundado, oficialmente, o Povoado de São Sebastião de Ribeirão Preto. Em 2 de abril de 1870, o povoado foi elevado à categoria de Freguesia e, no mesmo ano, foi inaugurada a Igreja Matriz de São Sebastião na atual Praça XV de Novembro (antigo Largo da Matriz).
A Freguesia cresceu no entorno da Igreja, elevando-se à categoria de Vila Provincial em 12 de abril de 1871. Foi nesse momento que o território de Ribeirão Preto foi desmembrado do município de São Simão. A cidade nasceu, portanto, como a maioria das comunidades do Brasil, sob o signo da fé religiosa.
A Freguesia de São Sebastião do Ribeirão Preto separou-se da Vila de São Simão, que havia sido criada como distrito de Ribeirão Preto (Lei Provincial nº 51, de 02 de maio de 1870, no município de São Simão). A Freguesia elevou-se à categoria de Vila, recebendo a denominação de Ribeirão Preto (Lei Provincial nº 67, de 12 de abril de 1871).
A Vila cresceu e, neste momento de transformação, o Professor Bernardino Almeida Gouvêa Prata, Bandeirante da Educação, idealizou a fundação de uma loja maçônica. Com o apoio dos francos-maçons (o Capitão Francisco Barbosa Lima e o Coronel Francisco Ferreira de Freitas, membros da Loja Capitular Amor à Virtude) e a intensa participação de maçons da região, a Loja foi fundada em 01 de novembro de 1872.
A iniciativa, que contrariou a Igreja Católica e os conservadores, resultou na primeira loja de Ribeirão Preto e região, denominada Augusta e Respeitável Loja Simbólica Amor e Caridade, filiada ao Grande Oriente do Brasil do Vale dos Beneditinos.
Há 153 anos, precisamente às 17h, na residência do Cel. Bernardo Alves Pereira, era fundada a Augusta e Respeitável Loja Simbólica Amor e Caridade nº 313. Este evento marca um momento de grande relevância para a história do município de Ribeirão Preto, simbolizando o início de uma trajetória pautada pelos princípios da fraternidade e do progresso.
Com seus ideais vanguardistas e a participação de figuras ilustres da época, a fundação da Loja tornou-se um marco fundamental para o desenvolvimento social e político da cidade. Compuseram o quadro de fundadores desta histórica oficina trinta e tres francos-maçons de ribeirão e região:
Sua primeira sede funcionou na Rua do Comércio, nº 68, em um imóvel de propriedade do Major Manoel Francisco de Carvalho. Esse imóvel ficou como herança para à sua neta, a Profª. Anayde Corrêa de Carvalho.
Ao longo de mais de um século e meio, a Loja transcendeu seu papel como uma sociedade reservada, consolidando-se como um verdadeiro catalisador de transformações sociais e econômicas, deixando um legado indelével na construção da identidade de Ribeirão Preto.
A Maçonaria Brasileira passava por uma crise interna que culminou em uma grande cisão no Grande Oriente do Brasil do Vale do Lavradio. Como resultado dessa cisão, um novo corpo maçônico foi fundado em 16 de dezembro de 1863, denominado Grande Oriente do Brasil do Vale dos Beneditinos, tendo como Grão-Mestre o Dr. Joaquim Saldanha Marinho. As Lojas fundadoras foram: Caridade, Comércio, Dezoito de Julho, Estrela do Rio, Imparcialidade, Philanthropia, Ordem e Silêncio.
Em 1865, o novo GOB do Vale dos Beneditinos foi reconhecido pelo Grande Oriente da França e pelo Grande Oriente Lusitano como a única Potência legal e legítima para o Império do Brasil. A partir deste momento, a Maçonaria brasileira cresceu e floresceu por toda a Corte, e o Rito Adonhiramita se solidificou. Dez anos após a referida cisão, o Dr. Saldanha Marinho propôs ao Visconde do Rio Branco (Grão-Mestre do Grande Oriente do Lavradio) a fusão da Maçonaria brasileira em uma única família maçônica.
Os termos foram acordados entre as partes, e a fusão foi votada em duas sessões – em 29 de maio de 1872 e 4 de junho de 1872 – e aprovada pelos Decretos nº 01/1872 e 02/1872, criando o "Grande Oriente Unido do Brasil" (GOUB). O Dr. Antônio Felix Martins (Barão de São Félix) foi nomeado Grão-Mestre Provisório. Em setembro do mesmo ano, realizaram-se as eleições para Grão-Mestre, nas quais Saldanha Marinho foi vencedor.
Derrotado nas urnas, o Visconde do Rio Branco declarou nula a fusão dos dois Grandes Orientes, por meio do Decreto nº 13, de 16 de setembro de 1872. Com a edição do decreto de nulidade, retomaram as atividades o Grande Oriente do Brasil do Vale dos Beneditinos e o Grande Oriente do Brasil do Vale do Lavradio. Nesta ocasião, passaram a coexistir quatro Potências Maçônicas distintas: GOB-L, GOB-B, GOUB e GOB-P. O Grande Oriente do Brasil do Vale dos Beneditinos cessou suas atividades, sendo extinto definitivamente em 1874.
Após a extinção do GOB-B, conforme documentos históricos, a Loja resolveu filiar-se ao GOUB (Grande Oriente Unido do Brasil), sendo reinstalada como Loja Capitular em 12 de dezembro de 1874. Nesta mesma data, foram instalados seu Capítulo Rosa-Cruz e seu Conselho de Cavaleiro Kadosh em solo ribeirão-pretano.
1) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 3° Anno 1874 (N° 8 a 12 – Ago a Dez 1874)
Pág. 753 – A Loja Amor e Caridade filiou-se ao Grande Oriente Unido do Brazil no período desde fascículo.
Pág. 813 – “Última Hora – Secção Official – Actos do Gram-Mestre da Ordem” – “14 de Dezembro – Aprova a filiação das Lojas Amor e Caridade, ao oriente de Ribeirão Preto, Deus e Humanidade, ao oriente de Itajubá, e Virtude do Campo Largo, ao oriente de Campo Largo”.
2) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 4° Anno 1875 (N° 1 a 3 – Jan a Mar -1875)
Pág. 176 – Quadro alphabetico das officinas da jurisdicção. N° 0007 – Titulo distinctivo Amor e Caridade – Oriente Ribeirão Preto – Rito Escossez.
3) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 4° Anno 1875 (N° 4 a 8 – Abr a Ago -1875)
Pág. 631 – “Loja Amor e Caridade, ao oriente do Ribeirão Preto na província de São Paulo, em 06 de março. A officina regularizou a si própria e nessa ocasião foram proferidos discursos análogos ao acto por diversos irmãos. “
Pág. 312 – Quadro alphabetico das officinas da jurisdicção. N° 0007 – Titulo distinctivo Amor e Caridade – Oriente Ribeirão Preto – Rito Escossez.
Outros fatos noticiados nos boletins da maçonaria brasileira após a Loja ter-se filiado ao Grande Oriente Unido do Brasil:
1) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 4° Anno 1875
Pág. 312 – Colação de Grau: Ramiro Luiz de Oliveira Pimentel - Secreto Intimo".
2) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 5° Anno 1876 (N° 4)
Pág. 356 – “A Loja Amor e Caridade, ao oriente do Ribeirão Preto, na província de São Paulo, deu posse a sua administração em 04 de março.
3) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 5° Anno 1876 (N° 1 a 4 – Jan a Abril -1876)
Pag. 478 - "Posse: Venerável Mestre - Henrique Carlos da Costa Marques, Secretário: Ramiro Luiz de Oliveira Pimentel".
4) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 6° Anno 1877 (N° 1 a 3 – Jan a Março -1877)
Pág. 004 – Decreta: A sentença acima proferida é considerada definitiva e expulso da Ordem o ex obreiro Antônio Faustino de Figueiredo Brazil, grau 3, brasileiro, artista e de residência ignorada.
5) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 7° Anno 1878 (N° 10 - Outubro de 1878)
Pág. 32 – "Venerável Mestre: Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão, Secretário: Moyses Fernandes do Nascimento".
6) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 8° Anno 1879 (N° 10 - Outubro de 1879)
Pág. 37 – "Venerável Mestre: Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão, Secretário: Moyses Fernandes do Nascimento".
Três anos após o falecimento do Visconde do Rio Branco, e dez anos após a tentativa frustrada de 1872, Saldanha Marinho demonstrou todo o seu amor pela Maçonaria Brasileira. Empregando todos os meios para a unificação, ele concretizou a tão sonhada fusão dos dois Grandes Orientes em uma única família maçônica em 21 de dezembro de 1882. A partir de janeiro de 1883, passou a existir um único Grande Oriente (com a extinção do Grande Oriente do Brasil do Vale do Lavradio e do Grande Oriente Unido do Brasil), denominado simplesmente "GOB - Grande Oriente do Brasil".
Com a fusão das duas Potências, houve uma grande cisma, a Loja Amor e Caridade não aceitou a fusão e filiou-se ao Grande Oriente Brasileiro ou do Passeio. Este Grande Oriente havia sido fundado em 1830 e instalado em 24 de junho de 1831, tendo como Grão-Mestre o Senador Vergueiro. Suas atividades cessaram em 1864, mas ele retornou com plena força e vigor em 1867.
Devido à saída da Loja Maçônica Aurora Escocesa em 21 de dezembro de 1887, o Grande Oriente Brasileiro encerrou definitivamente suas atividades. A Loja Capitular Amor e Caridade suspendeu suas próprias atividades e só retornou em 1908, quando se filiou ao Grande Oriente Independente de São Paulo (1903-1918).
Vale destacar que, em novembro de 1885, um pequeno grupo de maçons, liderado por Ramiro Pimentel, desligou-se de sua Loja de origem por questões de natureza partidária e fundou a Loja Maçônica Estrella D’Oeste. Inicialmente, a nova Oficina funcionou de forma provisória na residência de Pimentel, que foi nomeado venerável provisório naquele momento.
De acordo com os Boletins do Grande Oriente do Brasil, a filiação e a regularização da Loja somente se concretizaram cerca de dois anos após sua fundação, ao final de 1887.
Os membros que optaram por não aderir à nova Oficina empenharam-se na difusão da Maçonaria pelo interior paulista e regiões vizinhas, alcançando diversas localidades, como Batatais, Taquaritinga, Araraquara, São Simão, Mococa, São Carlos, Serra Azul, Cajuru, Bebedouro, Santa Cruz das Palmeiras, São José do Rio Preto, Santa Cruz do Rio Pardo, Brotas, Monte Alto, Descalvado, Sertãozinho, Jaboticabal, Franca, além de localidades mineiras como São Sebastião do Paraíso e Sacramento.
A primeira década de atividades da ARLS Estrella D’Oeste foi marcada por intensas turbulências internas, com desavenças e conflitos entre seus membros. Nesse contexto, ocorreu a primeira cisão, que resultou na fundação das Lojas Macedo Soares e Integridade Pátria. Novas divisões sucederam-se ao longo dos anos, até o falecimento de Ramiro de Oliveira Pimentel, figura central na história da Oficina.
Em agosto de 1896, o Grande Oriente do Brasil criou o primeiro cadastro de Lojas, publicado no Boletim Oficial nº 0006, conforme transcrição abaixo:
1) Boletim do Grande Oriente do Brasil: Jornal Official da Maçonaria Brasileira, Publicação Mensal – Nº 00006, 21° Anno – Agosto 1896 (Ano 1896\Edição 00006, Pg. 364)
Relação das LLoj.˙. que se constituíram sob a obediência do Gr.˙. Or.˙. do Brazil aos VVal.˙. do Lavradio e dos Benedictinos:
U 317. “Amor e Caridade”, rit.˙. esc.˙., - Ribeirão Preto (S. Paulo), filiação: 12 de Dezembro de 1874.
Com o recadastramento das Lojas federadas ao Grande Oriente do Brasil, e tomando como parâmetro a data de Instalação após as cisões ocorridas entre 1893 e 1927, a Loja Capitular Amor e Caridade, que detinha o nº 317, passou a ter o Nº de Cadastro 313.
Houve várias tentativas de reerguimento de suas colunas. A última notícia registrada nos jornais daquela época é que um grupo de maçons republicanos, liderado pelo Capitão José Etelvino da Silveira, Dr. João Caetano Álvares, Dr. Augusto Ribeiro de Loyolla, Felisberto Ferreira Gandra, Capitão Lino Engrácia, Capitão Anselmo Engrácia , e outros maçons progressistas que não aderiram à fusão da Loja Maçônica Integridade Pátria com a Loja Maçônica Estrella D’Oeste, reergueu as colunas da Loja Amor e Caridade em dezembro de 1908.
Sua nova sede foi instalada em um imóvel de propriedade do próprio Capitão José Etelvino, situado à Rua Américo Brasiliense, 115 (entre as ruas São José e Garibaldi e a Florêncio de Abreu). A Loja continuou a trabalhar no Rito Escocês, filiada ao Grande Oriente Independente Paulista. Tanto a Loja quanto outras da região interromperam suas atividades em 1918, como efeito da Gripe Espanhola.
O tempo passou, mas a história não foi apagada das memórias do município de Ribeirão Preto. Um novo grupo de pedreiros-livres reergueu novamente suas colunas precisamente em 11 de março de 2011, na qualidade de Loja de Pesquisa no Rito Escocês Retificado (RER), além de seu Capítulo Rosa Cruz e seu Conselho de Cavaleiros Kadosh.
Em 01 de novembro de 2014, a Loja passou a trabalhar no Rito Adonhiramita. Os Graus Filosóficos foram reconhecidos e incorporados ao Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita, e os Graus Simbólicos foram reconhecidos pelo Grande Oriente de São Paulo (GOSP). Em 04 de abril de 2019, a Loja passou a ser iniciática, recebendo uma nova Carta Constitutiva. Em junho de 2022, recebeu do Grande Oriente de São Paulo o título de "Cruz de Excelência Maçônica" pela passagem de seu sesquicentenário.
A Loja era vista com certo desprezo pela Maçonaria Ribeirão-pretana por estar filiada ao Grande Oriente de São Paulo. Para voltar à regularidade maçônica, resolveu desfiliar-se do GOSP e federalizar-se ao GOB, sendo reinstalada em 18 de novembro de 2022, quando recebeu uma nova Carta Constitutiva com um novo cadastro.
A Loja Maçônica Amor e Caridade nº 313, Benfeitora da Ordem e Progenitora da Maçonaria Ribeirão-Pretana, foi fundada em 01 de novembro de 1872 na cidade de Ribeirão Preto pelo Professor Bernardino de Almeida Gouvêa Prata, Bandeirante da Educação.
Esta centenária instituição civil, progressista e filantrópica, é formada pela associação de homens honestos, livres e independentes, unidos pelos vínculos da estreita fraternidade e regidos pelos princípios e doutrinas da verdadeira Maçonaria universal.
Como uma associação de direito privado sem fins lucrativos, seus Atos Constitutivos estão registrados e arquivados no 2º Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas da Comarca de Ribeirão Preto, sob o número 51.115.
A Augusta e Respeitável Loja Simbólica Amor e Caridade nº 313 é a Célula Mater da Maçonaria Ribeirão-pretana, e tem como máxima: "Amour et Charité". Seu principal objetivo é o aperfeiçoamento da espécie humana, o exercício pleno da Beneficência e a prática de todas as virtudes sociais. Adota como princípio fundamental a "LIBERDADE ABSOLUTA DA CONSCIÊNCIA E DA SOLIDARIEDADE HUMANA".
A Loja Maçônica Amor e Caridade nº 313 teve uma participação importante no desmembramento do município de Ribeirão Preto de São Simão e em sua subsequente emancipação.
Esta sesquicentenária Oficina foi crucial para o desenvolvimento da Maçonaria da região, sendo o ponto de partida para o surgimento de outras Lojas no seio do Grande Oriente do Brasil. Por intermédio de sua atuação, o desenvolvimento social e econômico da região alcançou êxito e pujança.